Fraldas & noitadas

ROTINAS
Voltar às fraldas e às noites mal dormidas quando se tem um adolescente em casa é desafiador para toda a família. Mas cria laços de amor inquebráveis.

Por Elsa Páscoa
 
O marido desconfiou primeiro. Mudanças súbitas de humor, um apetite desmesurado, idas repetidas à casa de banho… «virou-se para mim e disse: ‘se calhar estás grávida!». Sandra, 37 anos e mãe do Guilherme, na altura com 13 anos e do Pedro, 12, lançou uma gargalhada. «Não sejas doido, grávida, eu? Depois destes anos todos?». No entanto, uns dias depois, teve de se render à evidência. Vinha aí um bebé. Pedro, o marido, ficou entusiasmado mas Sandra nem por isso. «Só pensava como dizer aos meus filhos e como ia conciliar todo o trabalho que se tem com um recém-nascido e as necessidades deles enquanto adolescentes. Deus me perdoe, até pensei em não avançar mas o pai nem sequer quis ouvir falar disso. Foram umas semanas complicadas. Quando fiz a amniocentese e eles souberam que era outro rapaz, ficaram os três super-felizes e acho que foi aí que me deu o ‘clique’. Já não imagino a vida sem o meu bebezito». Refira-se que Filipe, o «bebezito» está prestes a celebrar o terceiro aniversário e os dois mais velhos continuam «completamente apaixonados» pelo mais novo.
 
No tempo das nossas avós, as proles numerosas eram comuns. E assim era também habitual que entre os irmãos mais velhos e os mais novos existisse uma diferença de idades significativa. Hoje, ter ao mesmo tempo um bebé e um ou mais adolescentes em casa é pouco comum e, quando acontece, pode ter na base outro tipo de razões: uma gravidez não planeada ou a reconstituição familiar por via de um segundo casamento. Pedro e Sandra estão no primeiro grupo, Ana e Miguel no segundo.
 
«Vivemos juntos três anos antes de casar e a minha filha mais nova nasceu cinco anos depois do casamento. Os dois mais velhos, a Catarina e o Rui, tinham 16 e 12 anos quando fiquei grávida e receei que a relação com o Miguel – que até então era a figura paternal, pois eles não se dão com o meu ex-marido – ficasse diferente. E ficou, mas não para pior. É claro que nem tudo são rosas, mas os três formam uma equipa bastante unida em relação à Anita, como nós lhe chamamos». Secretária de administração numa multinacional, Ana faz frequentemente horas extraordinárias à noite mas está descansada com a frente familiar. «Ir buscar à creche, dar banho, dar jantar, por a dormir. Eles lá se organizam e só quando têm uma dúvida transcendental é que me telefonam…»
 

Crescimento comum

«O nascimento de um bebé, seja em que circunstâncias for, significa que a família vai passar por um processo de adaptação à nova realidade. Isto acontece com o primeiro filho e com os restantes, independentemente dos intervalos entre os nascimentos». Conceição Nobre Costa, psicoterapeuta, refere que esta evolução «como todas, tem aspetos positivos e negativos» e não é o fato de haver experiência prévia com os mais velhos que afasta os momentos de ansiedade, dúvida e inquietação. «Os casais mais novos, perante a perspetiva de se tornarem pais pela primeira vez, reportam dificuldades que vão da inquietação sobre as suas capacidades parentais à eventual perda dos laços íntimos», refere, adiantando: «mas essas mesmas dificuldades podem afetar qualquer casal, em qualquer momento e há que as enfrentar se queremos que as alterações na composição da família sejam uma ocasião de crescimento saudável para todos».
 
É que, mesmo antes de serem pais, é aos membros do casal que cabe a missão de estabelecer as características que vão identificar o futuro conjunto que estabelecerão com os filhos. «A força de qualquer família está na conjugalidade e não na parentalidade. São os laços estabelecidos entre o casal que irão determinar o esforço de adaptação de hábitos e rotinas, de autonomias e independências, numa primeira fase entre o homem e a mulher e em fases posteriores entre ambos e as suas crianças», defende Conceição Nobre Costa.
 
Francisco nasceu quando as irmãs, Inês e Maria, tinham 12 e 11 anos. «Com a mais velha a coisa foi tranquila, adorou a chegada do irmão e, como tem uma personalidade muito independente, adaptou-se bem à nova realidade. Já a Inês passou por uma fase bastante complicada, e nós com ela», recorda a mãe, Teresa. «Até então era a mais nova, com tudo o que isso significa, e foi também muito mais dependente de nós. Os primeiros sinais de que algo não estava bem surgiram cá em casa, com momentos de muita insubordinação, e depois foi na escola, onde até esteve para chumbar por faltas. Uma situação difícil, que só melhorou depois do 9.º ano.»
 
«De cada vez que nasce um filho, nós apaixonamo-nos e, como tal, passamos por uma fase onde o objeto da nossa paixão nos domina. Todos estes sentimentos fazem parte do processo que nos vincula mas cabe-nos também perceber, no caso dos filhos mais velhos, que eles continuam a ter necessidades válidas. Mais: essas necessidades sofreram alterações com a chegada de um irmão e precisam de ser compreendidas e atendidas», diz Conceição Nobre Costa. «Não é pelo facto de serem adolescentes que estão livres de sentirem inquietações em relação à nova estrutura familiar.» 
 
Teresa reconhece que «demorou tempo» até à filha do meio retomar o equilíbrio, num processo que envolveu toda a família. «O Francisco deu noites muito más até fazer um ano. De tal forma que eu e o meu marido (também Francisco) acabámos por nos revezar quando voltei ao trabalho, senão a exaustão tinha dado cabo de nós. Mas, por outro lado, o bebé ajudava-me a não pensar apenas nos problemas que estávamos a passar com a Inês. Foi um autêntico antisstress e acredito que as coisas teriam sido ainda mais complicadas se, muitas vezes, não respirássemos fundo a olhar para ele.»
 
Hoje, os três irmãos «embora com interesses muito diferentes, como é de esperar», são muito próximos. As duas mais velhas, às voltas com a vida universitária, têm vindo a passar temporadas fora de casa e Francisco «anda bem mais tristonho quando lhe falta alguma», refere a mãe. «A Maria é refilona e ele também é refilão, o que significa que, de vez em quando, temos ‘cenas’ animadas cá em casa, em especial quando a Inês se junta à festa. Mas há momentos em que todos sentimos a falta dessa animação.» Nesta altura, a irmã do meio está em Barcelona, a fazer uma pós-graduação em animação computorizada e «o Francisco só vai descansar quando a tiver de novo ao pé dele», acredita Teresa.
 

Irmãos, não pais substitutos

«Poucas semanas depois da Anita nascer, tive uma conversa muito séria com a Catarina. Ela parecia ter entrado numa autêntica competição comigo: queria ser apenas ela a dar banho, vestir, despir, mudar as fraldas à irmã, embalar… só não tentava amamentar porque não podia!», recorda Ana. «Até durante a noite vinha bater à porta do nosso quarto quando ouvia chorar. Disse-lhe que estava a adorar a ajuda, mas que a responsabilidade pela bebé era minha e do pai e que a irmã não era uma espécie de Nenuco animado. Até chorou, coitada, e tive remorsos, mas o facto é que ela estava ressentir-se e nós também. A única coisa em que ainda hoje, quatro anos depois, não prescinde é de dizer de sua justiça quanto às ‘toilettes’ da irmã…», sorri.
 
«Um dos riscos que as famílias correm nestas situações», alerta Conceição Nobre Costa, «é o da parentalização dos filhos mais velhos. E isso pode ocorrer devido a duas circunstâncias. A primeira é a tentativa, por parte destes, em afirmar a sua autonomia crescente por via de responsabilidades típicas dos adultos. A segunda relaciona-se com a tentação dos pais, assoberbados com todas as obrigações, de delegarem excessivamente. Todas as famílias são feitas de partilha: de afeto, emoções, disponibilidade e, naturalmente, de tarefas. Mas existem papéis que não devem ser partilhados com os filhos e o da parentalidade é um deles». 
 
Sandra recorda que para o marido – oitavo de uma família de dez irmãos e irmãs – era natural que os dois filhos mais velhos se responsabilizassem por coisas como levar o bebé à ama ou dar-lhe o pequeno-almoço ou o lanche e garantir que comia. «Fiz-lhe ver que não podíamos colocar em cima deles essas tarefas todos os dias, embora eles nunca tivessem reclamado. Os pais somos nós e eles adoram ajudar-nos com o irmão, mas também têm as suas obrigações na escola, no hóquei em patins e nos escuteiros e não me passa pela cabeça privá-los de viver em função do Filipe. Passar essa mensagem não foi fácil nem imediato, mas acho que atingimos um equilíbrio. Pelo menos já dei por nós a mudar uma fralda, a abrir a carteira para tirar uma mesada e a discutir se naquele fim-de-semana ia haver saídas à noite. Tudo ao mesmo tempo!»
 
Tolerância, paciência e intimidade
No livro Midlife Motherhood: A Woman-to-Woman Guide to Pregnancy and Parenting (sem edição em Portugal), a psicóloga norte-americana Jann Blackstone-Ford – ela própria mãe de quarto filhos com uma grande diferença de idades entre os três mais velhos e a mais nova – revela alguns truques para gerir as diferentes expectativas:
 
- Não culpe os irmãos pelo comportamento do mais novo. Embora pareça que este apanha «maus hábitos» diretamente dos irmãos, acusá-los de serem um mau exemplo pode levar a rancores contra o «miúdo que causa sarilhos». Na maior parte dos casos, o mais novo está a testar os limites e a paciência dos adultos e a experimentar como é ser mais crescido. Em vez de ralhar, experimente sugerir-lhe formas mais simpáticas de imitar os irmãos.
- Lembre-se das necessidades dos mais velhos. É comum que eles se ressintam da atenção dada ao recém-chegado e a traduzam em comportamentos intolerantes ou sinais de mágoa. Por muito avassaladora que seja a chegada de um novo bebé, é importante que os pais não baixem o nível de atenção e afeto que os mais velhos conhecem.
- Ensine a importância da compreensão. As crianças são sedentas de respeito por parte dos irmãos mais velhos e podem sentir-se magoadas se forem rejeitadas. Por exemplo, se uma adolescente fica furiosa porque a irmã pequena mexeu nas suas coisas, há que explicar-lhe que só o fez porque quer ser tal e qual a mais velha. Isto dá a oportunidade a esta de perceber as motivações e até de se sentir elogiada por ser um modelo de comportamento.
- Proteja a privacidade. Os mais novos devem saber que os irmãos têm coisas que estão fora de alcance ou nas quais devem apenas mexer até terem autorização. E há que tornar claro que apenas se entra nos quartos após bater à porta. Os adolescentes que se sentem respeitados pelos pais tendem a ser mais tolerantes com os irmãos. E quando o respeito mútuo é cultivado, os laços emocionais ficam mais fortes, independentemente do número de anos que os separam.
 
Pais&filhos

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